Tags

, , , ,

Resumo: Este texto se pretende uma análise pontual da Crítica kantiana. Como tal, ela concerne aos movimentos operados por Kant que possibilitaram o afastamento de Kant tanto do empirismo quanto do racionalismo, de tal modo que uma nova filosofia surgiu com o propósito de pôr um fim (pelo menos em tese) à oposição entre empirismo e racionalismo. Amiúde, não me enveredarei em outros aspectos da Crítica kantiana, de modo a desviar-me daquilo que foi definido como o propósito deste texto. Ater-me-ei ao essencial que é compreender como se dá a recusa, na Crítica, de uma perspectiva empirista e outra racionalista sob o ponto de vista de uma distinção entre pensamento e sensibilidade.

Palavras chaves: Filosofia Crítica; Racionalismo; Empirismo; Pensamento e Consciência.

A Concepção Kantiana de Pensamento e sua Importância no Criticismo

      Quiçá possamos definir o projeto geral da filosofia crítica de Kant (1724-1804) como o esforço em direção a uma superação do dualismo entre o empirismo (de John Locke a David Hume) e o racionalismo dogmático (do racionalismo cartesiano ao leibniziano)¹. Como se sabe, a querela entre empiristas e racionalistas constitui um episódio indubitavelmente importante na História da Filosofia, de modo que não podemos pensá-la desconsiderando as conseqüências desse embate. De um lado encontramos os empiristas como Locke defendendo a tese de que todo conhecimento deriva única e exclusivamente da experiência; do outro lado encontramos racionalistas como Descartes ou Leibniz que defendem a tese de que o conhecimento se dá meramente por uma intuição intelectual, de modo que tudo aquilo que diz respeito ao mundo sensível é rejeitado (supostamente) por engendrar o erro, o equívoco, no conhecimento.

      De que modo Kant rejeitará o empirismo e racionalismo? Bem, em seu livro Crítica da Razão Pura (1788), Kant nos apresentará uma hipótese; a saber: de que é possível que existam conhecimentos a priori, que na terminologia de Kant significa: conhecimentos que independem de toda e qualquer experiência. Porém, ele não fará tal hipótese a partir da negação da tese empirista segundo a qual todo conhecimento começa com a experiência. Para Kant, todo conhecimento começa com a experiência – isso é um fato mais do que certo para ele -, o que significa dizer que na ordem do tempo, nenhum conhecimento precede a experiência, só que o conhecimento, para Kant, não se constituirá apenas disso: se por um lado, todo conhecimento começa com a experiência, por outro, nem todo conhecimento encontra a sua origem na experiência (é a tais conhecimentos que Kant dará o nome de a priori). Isso significa dizer que o conhecimento, em Kant, é um composto. Mas composto de quê? Um composto das impressões sensíveis e daquilo que a nossa própria faculdade cognoscitiva produz por si mesma, sendo, como diz-nos Kant, tão-somente posta em movimento pelas impressões sensíveis. Citando:

Mas se é verdade que os conhecimentos derivam da experiência, alguns há, no entanto, que não têm essa origem exclusiva, pois poderemos admitir que o nosso conhecimento empírico seja um composto daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa faculdade cognoscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impressões dos sentidos); aditamento que própria mente não distinguimos senão mediante uma longa prática que nos habilite a separar esses dois elementos.” (KANT, Imanuel. Crítica da Razão Pura. Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia). Disponível em: http://br.egroups.com/group/acropolis/)

      A compreensão da ideia kantiana de conhecimento como composto é fundamental para se compreender todo o resto. Pensar o conhecimento como um composto é um dos primeiros movimentos da crítica kantiana rumo a uma superação da dualidade entre o racionalismo e o empirismo. É por meio dessa nova concepção de conhecimento que Kant empreenderá aquilo o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) chamará de síntese disjuntiva: de dois objetos antagônicos se faz nascer um terceiro objeto que não se confunde com os dois primeiros, embora ele não tenha rompido absolutamente com os objetos precedentes. Obviamente, só isso não basta, será preciso que nos aprofundemos um pouco mais nessa ideia inovadora de Kant para percebemos como se dá essa síntese disjuntiva. Ora, é-nos lícito indagar: qual é o problema fundamental que Kant encontrara nas duas doutrinas? No que, mais precisamente, tais doutrinas pecam, obrigando Kant, então, a formular uma doutrina filosófica absolutamente nova? Antes de ensaiarmos uma resposta que englobe essas duas questões, necessitamos de uma outra compreensão, agora, acerca dos princípios a partir dos quais Kant desenvolve sua filosofia.

      Kant partirá de um pressuposto para desenvolver sua filosofia: a ideia da consciência enquanto consciência que não apenas reflete sobre as coisas, mas que reflete, outrossim, sobre si mesma; consciência, então, é consciência de si mesma enquanto consciência. A consciência, para Kant, pode voltar o seu olhar para si mesma. Por exemplo, eu não tenho apenas consciência de uma caneta posta a minha frente, eu também tenho consciência de que tenho consciência de uma caneta posta a minha frente. Percebe-se aí a diferença fundamental. Dessa concepção de consciência Kant retirará uma conclusão importantíssima: a consciência é, então, cristalina, em outras palavras, ela é dotada de uma clareza sem igual. E será em razão dessa clareza da consciência que Kant partirá dela (estamos encerrados dentro da consciência). Os sentidos, diz-nos Kant, sofrem de certas limitações que não lhes permite possuir a mesma clareza da consciência. Tomemos por exemplo um órgão muito bem conhecido por nós: o olho. Um dos nossos cinco sentidos é a visão, que se dá por meio desse órgão da sensibilidade. O olho é capaz de captar os objetos que lhe são apresentados, todavia, ele não pode ver a si mesmo. O olho não pode voltar-se para si, porque ele, o olho, está fora do seu campo de visão, que só capta aquilo que ele não é (os objetos externos a ele). Pode-se objetar que o olho pode ver a si mesmo através do reflexo de um espelho, mas isso não é válido por uma razão muito específica: a consciência é consciência de si mesma não por intermédio de objetos externos, ela o é porque é da sua própria natureza  sê-lo; em outras palavras, a consciência é por si mesma introspectiva, ela é pura reflexão.

      Já nos encontramos de posse de algo fundamental: a concepção de consciência da qual Kant partirá. Ora, mas ainda assim, se pode indagar: de que modo isso contribuirá para a investigação? Acontece que Kant dividirá a consciência em regiões, sendo uma delas de suma importância para nós; a saber: a intuição. O que é a intuição? Para Kant a intuição será uma das faculdades de conhecer. O que ela faz? Ela nos apresenta as impressões sensíveis, de modo que a intuição é a faculdade ligada à sensibilidade. A intuição, sendo compreendida como contato imediato – ou seja, sem mediação – com as coisas, é o que nos permite sentir.

      Já sabemos o que a intuição é, mas ainda nos falta expor uma característica importante dessa faculdade. Para Kant, a intuição será uma faculdade passiva. Como assim? Por meio dela nós apenas recebemos as impressões sensíveis em estado bruto, sem o devido cuidado que converte tais impressões em conhecimento, em pensamento. Ora, sendo a intuição meramente passiva – por meio dela apenas sentimos o impacto do mundo sobre nós -, ela não é capaz de, por si, produzir conhecimento, pensamento. Somente por meio de faculdades ativas é que isso é possível. Daí decorre um corolário que nos interessa: a intuição nos dá apenas o sentir, não o pensar. Sentir o impacto do mundo sobre nós ainda não é pensar o mundo. Por exemplo, o som produzido pelos acordes de um instrumento, a intuição nos dá a impressão sensível referente ao som, de tal modo que somos tocados por ele, mas isso não basta para que haja pensamento. Ser tocado pelo som dos acordes de uma música não é ainda pensá-lo. Essa é uma tarefa que não cabe à intuição, já que o seu caráter puramente passivo lhe impede de refletir.

      A intuição, que diz respeito tão somente à sensibilidade distingui-se do pensamento, que será o resultado de outras duas faculdades, agora ativas. Do ponto de vista do empirismo, só a intuição basta para termos pensamento e conhecimento (lembremos de Hume e em como ele definira a ideia ou pensamento). Ainda não se pensava como Kant, para quem a intuição era uma faculdade passiva. Mas, afinal, quais são as outras duas faculdades? São elas: o entendimento e a razão. Mas para a nossa investigação bastará uma análise sobre o entendimento. Ora, como já havíamos visto, por meio da intuição nós recebemos as impressões sensíveis em estado bruto. Cabe ao entendimento a tarefa de recortar esse aglomerado de impressões sensíveis, separa-las, de tal modo que cada uma delas se torne inteligível. Como o entendimento faz isso? Por meio da produção de conceitos. Os conceitos são produtos só, e somente só, do entendimento, e não da intuição (as impressões sensíveis em seu estado bruto não nos dão conceitos). E se compreendemos bem que o pensamento só se torna possível através de conceitos, os empiristas, que se limitavam tão-somente às impressões sensíveis, estavam tremendamente equivocados.

      O que é um conceito? Segundo a definição que o próprio Kant dá, um conceito é o predicado possível de um sujeito. Então, a intuição nos apresenta as impressões sensíveis, por exemplo, a impressão sensível do azul do céu, o entendimento dá um sentido, uma significação, um conceito à impressão sensível do azul do céu. Ver o azul do céu, ou seja, senti-lo, não é a mesma coisa que pensa-lo por meio de conceitos. Um conceito, enquanto compreendido como o predicado possível de um sujeito, é correlato dele, está ligado ao sujeito, mas não se confunde com ele. Aplicando isso ao exemplo que dei: o conceito de azul do céu não é a mesma coisa que a impressão sensível desse azul. O pensamento vem sempre depois. Usando um outro exemplo: alguém que leva um tiro. No exato momento em que esse indivíduo leva um tiro, ele não estará pensando no tiro que levou, mas o estará sentindo. Depois, certamente, ele poderá refletir sobre as impressões de ter levado um tiro, mas aí já não se trata mais de intuição, mas de pensamento. No momento, não se trata do pensar sobre o tiro que levou, mas do próprio tiro, do projétil perfurando sua carne. Entre o sentir e o pensar existe um hiato, podemos dizer.

      Há tipos distintos de conceitos. E Kant nos enumerará três tipos: 1) os conceitos factícios (aqueles que são meras criações nossas); 2) os conceitos empíricos (aqueles que nos são dados pela experiência); 3) conceitos puros ou noções (aqueles que não derivam da experiência, ou seja, que são a priori). Vamos para os exemplos

1) Conceitos factícios:

      Esses conceitos são conceitos criados por nós. Como assim? Quer dizer que a sua criação se dá por conveniência. Cito um exemplo: o homem que inventou a caneta. Ora, antes dele a inventar, não havia um conceito sobre esse objeto, pois ele é uma invenção, uma novidade. Então, a partir de mim mesmo, eu crio um conceito de caneta. Bastava-me um esforço criativo.

2) Conceitos empíricos:

      Conceitos empíricos são aqueles conceitos que nos são dados pela experiência. Como assim? Tomemos o exemplo do conceito de mamífero: é mamífero todo animal que alimenta seus filhotes por meio de mamas; ou todo animal que possui mamas. Ora, tal conceito só pode ser extraído da experiência: na medida em que observo que certos animais possuem uma característica específica (no caso, possuírem mamas) eu estabeleço uma ligação entre esses animais (um elefante, uma vaca ou um cão) e o conceito que deles deriva (o conceito de mamífero). O conceito de mamífero está subordinado à experiência, eu não posso dizer que todo animal que possui mamas é mamífero se eu não verificar, no mundo, que de fato todo animal que possui mamas é mamífero.

3) Conceitos puros ou noções:

      Os conceitos puros ou noções são como já se pode imaginar, todo conceito que independe da experiência. Um exemplo cabal de conceito puro: Deus. Deus é um exemplo de pensamento (lembremos que pensar é pensar por conceitos) que não advém de quaisquer impressões sensíveis. Deus é puro pensado, de tal modo que só temos dele conceitos, mas não impressões sensíveis. É por isso que Kant nos dirá que não dispomos de um conhecimento acerca de Deus, já que para haver conhecimento é preciso haver também impressões sensíveis, ou seja, do ponto de vista kantiano, o conhecimento reclama uma empiricidade que o torna possível como conhecimento. Posso pensar Deus, mas não conhecê-lo. Sendo assim, Deus é um exemplo de pensamento que não vem da experiência, ou seja, ele é a priori.

Conclusão

      A conclusão que tiramos disso é simples: se não basta a intuição para termos conhecimento, se é preciso que faculdades de conhecer ativas ajam sobre aquilo que recebemos por meio da intuição, logo, os empiristas não podem dizer que todo o nosso conhecimento encontra sua origem na empiria. Lembremos que o conhecimento é um composto. E é dessa ideia de composto que Kant tirará a sua distinção entre pensar e sentir. O pensamento só acontece por conceitos, que por sua vez, são produzidos pelo entendimento quando esse se precipita sobre as impressões sensíveis que nos são apresentadas pela intuição. Os empiristas conheciam as impressões sensíveis, a intuição não era para eles estranha. Só que eles pecavam por desconhecerem o pensamento. Já os racionalistas conheciam bem o pensamento, entretanto, pecavam tal como os empiristas, pois desconheciam as impressões sensíveis, a intuição. É a partir daí que Kant afastar-se-á tanto do empirismo como do racionalismo. Seria preciso compreender que o conhecimento se faz na relação entre o pensamento e as impressões sensíveis. Pensar e sentir são, então, heterogêneos, distintos. O erro dos empiristas e dos racionalistas foi o de não terem se atido a essa heterogeneidade.

Notas:

¹: Kant define a filosofia como «a ciência da relação entre todos os conhecimentos e os fins essenciais da razão humana»; ou como «o amor que o ser racional experimenta pelos fins supremos da razão humana» (1). Os fins supremos da Razão formam o sistema da Cultura. Reconhecemos já nestas definições uma dupla luta: contra o empirismo, contra o racionalismo dogmático. (DELEUZE, Gilles in “A Filosofia Crítica de Kant”. Lisboa: Edições 70, 2000)

About these ads