Ressonâncias filosóficas: um encontro possível entre Nietzsche e Bergson

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Assim, pois, a questão: 

 

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que juguei que senti.

Releio e digo: “fui eu?”

Deus sabe, porque o escreveu. (Fernando Pessoa)

      A crítica mordaz de Nietzsche à noção de sujeito como substratum da ação (sujeito da vontade) e do pensamento (o cogito ou o Eu transcendental), bem como de sua suposta unidade ontológica, é conhecida de todos os círculos de estudos nietzscheanos mundo à fora. Disso conclui-se que a abordagem desse momento da filosofia nietzschiana é já um lugar comum, fornecendo àqueles que desejam introduzir-se no seu pensamento, para falar à maneira dos pintores, um motivo. Há um consenso de que se trata, neste caso, de uma questão capital para o filósofo alemão, não apenas pela própTria natureza controversa da ideia de sujeito, mas também porque ela insere-se no plano mais geral de uma crítica à causalidade e à linguagem como imagem imóvel do mundo. Todavia, neste trabalho de verve explicitamente ensaística[1], ousaremos algo diferente; a saber: valendo-nos de certas passagens, procuraremos prefigurar o que chamaríamos, grosso modo, de uma análise de “filosofia comparada”, erigindo como termos de comparação a crítica de Nietzsche ao sujeito e a crítica de Bergson à inteligência, cujas similaridades buscaremos destacar do quadro geral de suas respectivas filosofias. Continuar lendo

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Jean-Paul Février fala sobre a Filosofia da Diferença e sua irredutibilidade à moda pós-moderna

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Jean-Paul Février fala sobre a Filosofia da Diferença e sua irredutibilidade à moda pós-moderna1

  

Pierre: O senhor buscou sempre enfatizar que suas pesquisas giram em torno de um conceito como o de Diferença, tal como Deleuze, que foi também seu professor e orientador, o concebia. Todavia, alguns críticos vêem no senhor a marca de um desvio: haveria, aí, uma aproximação perigosa entre a filosofia da diferença e o pós-modernismo. A que se deve tal desvio (se é que se trata de um)?  Continuar lendo

Políticas da imanência: o devir-animal contra a máquina antropocêntrica

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Resumo: A partir das incursões da antropologia contemporânea nas cosmologias das sociedades não ocidentais, tornou-se urgente resituar o homem frente o animal. Restituir uma certa positividade e imanência do segundo em relação ao primeiro. Pensar a diferença que os separa e, paradoxalmente, os arrasta um para o outro, não como uma diferença hierárquica ou disjuntiva, mas como outra coisa. Para o breve estudo aqui proposto, ter-se-á em mente que a máquina antropocêntrica procurou relegar ao animal o lugar obtuso da falta. Tratar-se-á, portanto, de problematizar o estatuto negativo dos animais, tentar mostrar que essa negatividade serve às capturas promovidas pela máquina antropocêntrica. Ao mesmo tempo, apresentar-se-á certos esforços de repensar o animal em outros termos que não os da máquina antropocêntrica. 

Palavras-chave: Antropocentrismo; Deleuze; Devir-animal.

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Ecce Homo: esboço de uma análise acerca da função egoística no processo de tornar-se o que se é

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Resumo: A filosofia de Nietzsche revelaria, sob um certo aspecto (o da autogenealogia), a marca indelével do individualismo, tomado como uma certa afirmação egoística de si. Mas, assumindo que isso seja verdade, em que consiste esse egoísmo? Qual o lugar dessa afirmação na filosofia de Nietzsche? A pretensão deste texto é bastante local, e tratará apenas de certos vestígios dessa questão, tendo em vista o procedimento autogenealógico que dá sentido à Ecce Homo.

Palavras-chave: Nietzsche; Egoísmo; Ecce Homo; Autopreservação. 

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Gilles Deleuze: a literalidade conceitual e a metáfora

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Magritte - Isto não é um cachimbo

Ceci n’est pas une pipe (1929, óleo sobre tela) – René Magritte.

      O leitor se espantará se, após uma leitura apressada, dar-se conta de que diversos termos que tendo sido assumidos como metáforas nessa leitura, em realidade, dão testemunho de uma literalidade que nada concede à metáfora – pensa-se, num primeiro momento, que se trataria de um abuso, de uma inverossimilhança do autor. Olhamos para o lado, com suspeita, e nos perguntamos se isso está certo. Obviamente, trata-se de outra coisa, de um conjunto de regras especiais que permitem ao filósofo pensar o outrora impensado (um novo modo de expressão filosófica). Deleuze (1925-1995) insistirá, em momentos muito diversos, que aquilo que ele diz não é, sob circunstância alguma, uma metáfora (é preciso lê-lo ao pé da letra); Deleuze não falará através de metáforas. O que isso significa, afinal? Significa que não se deve tomar um conceito filosófico, com seu rigor, sua lógica e sua realidade próprios, por uma metáfora. É um cuidado, um modo correto de proceder no plano conceitual. Confundir o conceito – e conceito, como bem esclarecido no livro O que é a Filosofia (1991), é aquilo que a filosofia produz enquanto tal1 – com uma metáfora é destruir o próprio conceito, emperrando assim a criação filosófica que é, afinal, a criação conceitual.

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O fraquejar da razão: sobre os ensaios céticos de Russell

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    Que Russell se inscreva na tradição racionalista da filosofia e que por tal motivo tome emprestado o ceticismo tão-somente como um instrumento que lhe possibilitará dar conta de certos problemas concernentes à racionalidade (seus limites, seu funcionamento, sua natureza etc.) sem, no entanto, refutá-la, será admitido de pronto por nós. Tal verdade permitir-nos-á lançar luz à problemática da imagem do pensamento sob o prisma da filosofia da diferença. Acreditamos que uma tal filosofia é a única capaz de dar conta do problema da racionalidade sem cair nos velhos e enfadonhos disparates da tradição. Tal como Nietzsche (1844-1900) desconfiamos do valor da “razão a todo custo” e identificamos em Russell, mais especificamente em seu ceticismo paradoxal, a marca dessa desconfiança que, no entanto, se postará no nível do recalcado, como aquilo que se combate, que se deve combater. Russell se nega a levar adiante sua suspeita, ele ainda quer ser racionalista. E trataremos aqui dessa relação ambígua de Russell com o racionalismo, partindo da tese de que Russell será movido em suas investigações filosóficas por um racionalismo fraquejante.

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A conversa assimétrica: identidade e diferença

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O Ocidente e os primitivos

      No texto Entre silêncio e diálogo, Clastres mostra que o Ocidente teria, como elemento imanente à sua constituição, “a muito notável intolerância (…) diante de civilizações diferentes, sua incapacidade de reconhecer e aceitar o Outro como tal, sua recusa em deixar subsistir aquilo que não lhe é idêntico” (CLASTRES, 1968, p. 87). Daí o fato dos encontros com os primitivos, sobretudo à época da descoberta do Novo Mundo, terem sido mediados, na sua maioria, pela violência. O que, por sua vez, levará Clastres a descobrir a vizinhança entre Razão e violência. Estranha vizinhança que o humanismo não saberá reconhecer e que irá situar-s bem ali aonde não se olha, onde não se quer olhar: nas sombras da história. Para o antropólogo francês, sem o recurso à violência a Razão jamais teria instaurado seu reino (idem, ibidem, p. 87). Conclui-se, com muita facilidade, que a violência nada mais foi que a condição de possibilidade do domínio da Razão – é preciso quem sabe acrescentar, sob pena de perdermos o essencial: foi também sua força e expressão mais vivaz.

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Sociedade disciplinar: o nascimento da alma moderna e as novas tecnologias de poder sobre o corpo

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Pan-óptico (1791), desenho de Jeremy Bentham, criador do projeto panóptico.

Pan-óptico (1791), desenho de Jeremy Bentham, criador do projeto panóptico.

    Ao apontar o objeto de sua análise historiográfica – a “microfísica do poder punitivo” (FOUCAULT, 2009, pp. 31-32) -, Foucault procura escapar a certos inconvenientes e insuficiências de uma análise histórica refém dos paradigmas marxistas que orientavam o pensamento político até então; a saber: o paradigma da ideologia, de um lado, e o paradigma dos aparelhos de Estado, de outro. O marxismo, por insistir na tradução do fenômeno do poder em termos de uma fantasmagoria ideológica – o que acabaria por converter o campo no qual as relações de poder investem-se e se desinvestem num lugar em que desfilam os simulacros, as falsificações, os velamentos etc. -, teria perdido a própria concretude das relações de poder. Compreende-se tal concretude, é importante frisar, como sendo os investimentos de poder sobre o corpo através de tecnologias específicas e relativamente bem situadas historicamente, segundo as estratégias das quais ele serve-se e cuja consideração garante a inteligibilidade do fenômeno do poder.

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O aprendiz e a noite: a narrativa da descoberta da noite em sua positividade e de sua afirmação como afirmação do devir

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      Não somos comentadores. O que o leitor tem diante de si é um corte, um recorte, em suma, uma perspectiva. Mas o que é um recorte? Um recorte consiste em ativar certas potencialidades de uma dada matéria. Um romance, um poema, um texto filosófico deve ser tomado como uma matéria à espera de ter suas potências ativadas. Isso justifica a deliberada preferência que demos a certos elementos do texto, em detrimento de outros: assumimos um compromisso amoroso com determinadas potências, com a ativação destas e sem a menor ambição totalizadora.  Com efeito, o critério de seleção não é outro senão o do interesse: “isto é interessante…”, “aquilo não é interessante…” etc.

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Análise dos projetos teóricos de “Maladie Mentale et Personnalité (1954)” e “Doença Mental e Psicologia (1962)”

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      Trata-se aqui abordar algumas diferenças que marcarão duas etapas teóricas do pensamento foucaultiano. Em 1954, Foucault faz uma análise das psicopatologias em que a personalidade, na sua relação com a doença, aparece como ponto focal (é a personalidade como objeto do saber médico). Já em 1962, o filósofo lança luz àquilo que é a psicologia enquanto saber sobre a personalidade (a personalidade afetada pela doença). Foucault com isso desloca o foco de sua reflexão e marca um período de mudanças indeléveis em seu projeto teórico. Se no texto de 54 a personalidade constituía o objeto de sua pesquisa, como se por ela desvendássemos os mistérios da loucura, agora é a própria psicologia, como pretendente da verdade da doença mental, que se torna um problema. Tentarei mostrar que o texto de 62 é o resultado de uma mudança de perspectiva em relação ao “fato patológico”, à psicologia e suas técnicas de análise, em suma, às abordagens psicológicas tradicionais da doença mental, assim como o “sentido histórico” da doença.

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