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      Abandonemos todas as mot d’ordre das quais poderíamos nos valer, elas nada dizem ou se dizem, dizem apenas o vazio que as preenche. É como diz Deleuze belamente em um de seus livros: não basta dizer “abaixo os gêneros”, é preciso viver como se não houvesse gêneros, sobretudo no nível da linguagem. A conversa só se faz nesse momento em que se põe em suspenso as palavras de ordem. Ora, o que são as palavras de ordem senão aquilo que estupidifica toda conversa, seja em política, em estética, em filosofia?

      O que tem se evidenciado no debate contemporâneo sobre as cotas nas universidades brasileiras é o caráter problemático desse dispositivo institucional e da promessa que constantemente se diz acompanhá-lo. Tal promessa é largamente afirmada pelos defensores das cotas, e mesmo pelos seus detratores. Guardemos a promessa.

      A primeira dificuldade consiste em pensar no estatuto positivo das cotas. Ocorre que se afirma, até demais, o fato de que as cotas viriam para acabar com o racismo nas universidades brasileiras. Tal afirmação é, evidentemente, um exagero, muito embora seja preciso também mostrar que se as cotas não eliminam o racismo, pelo menos elas têm uma certa legitimidade e produzem efeitos positivos. Como se pode ver, livramo-nos da discussão maniqueísta que está às voltas com um mal entendido de base. Afirmamos apenas que há, efetivamente, uma visão distorcida do alcance desse dispositivo, de sua funcionalidade.

      Ora, é possível argumentar que as cotas apenas constatam, a nível institucional, o racismo dentro e fora da universidade, na medida em que para funcionar precisa do postulado de que há “brancos” e “negros”, isto é, há uma divisão prévia que se dá por meio de um mecanismo que produz dicotomias. Poder-se-ia, então, perguntar: qual o problema com as dicotomias? Acontece que a dicotomia é sempre acrescida de um elemento hierárquico: ela é a dicotomia de um maior e de um menor. O “branco”, no esquema dicotômico, ocupa um lugar privilegiado, enquanto que o “negro” ocupa um lugar desprivilegiado em relação ao “branco”. Portanto, um termo da dicotomia submete-se ao outro e estabelece-se, assim, uma relação hierárquica de dominação: o racismo, mas poderíamos falar do machismo também. As cotas não ultrapassam a dicotomia que estrutura o racismo enquanto tal, ao contrário, depende dela para efetivar-se e por isso não é possível afirmar que elas eliminem o racismo na universidade. Na verdade, as cotas apenas respondem, de modo ainda insuficiente, ao racismo e seus desdobramentos sócio-culturais.

      Circula pela rede um vídeo em que o ator americano Morgan Freeman contesta a legitimidade das cotas. Ele, negro, contestando a legitimidade das cotas. Um contra-senso? Certamente não, se não estivermos pensando dogmaticamente, isto é, como maniqueístas. Não se trata de uma luta do Bem contra o Mal, em que os pró-cotas estão do lado do Bem enquanto que aqueles que a contestam estão do lado do Mal, como se só houvessem esses dois pontos de vista.

      Morgan Freeman está pensando para além de uma distribuição binária. Enquanto a máquina binária funcionar, haverá hierarquia e dominação. O que Freeman não diz – mas que está contido em sua fala – é que a questão capital é, na verdade, alcançar um ponto em que não se faça mais sentido falar em termos de “branco” e “negro”. E as cotas não servem a esse objetivo, pois, como vimos, elas supõem que haja algo como “branco” e “negro”; ela suaviza ligeiramente a distância hierárquica entre eles. Em outras palavras, que as instituições, os meios de comunicação, as empresas, os comércios, as pessoas, ultrapassem a máquina binária, pensem e vivam sem partir dela para interpretar a experiência social. Que a subjetividade não seja enclausurada por uma identidade, no caso étnica, uma vez que toda máquina binária obriga o sujeito a assumir uma identidade consigo mesmo, que ele seja, sem sombra de dúvidas, aquilo que a máquina binária impõe como forma, como modelo: o “negro” e o “branco”, mas também o “homem” e a “mulher”, o “pobre” e o “rico”, o “heterossexual” e o “homossexual”, o “normal” e o “patológico” etc. O problema é – e de um certo modo sempre foi – o da identidade e da diferença: do primado da Identidade e da recusa de se pensar e viver a Diferença. A máquina binária não apenas distribui papéis, funções, mas circunscreve sujeitos, campos de experimentação, em suma, produz uma fixidez identitária a partir da qual todos os devires são bloqueados. Pois, entre o que se chama comumente de “branco” e de “negro” há toda sorte de devires que a máquina binária – que domina a linguagem sobretudo, como mostra Deleuze  – é incapaz de comportar e que por isso os bloqueia.  Daí também a importância que cada vez mais se dá aos devires, a toda uma micropolítica: devir-mulher, devir-criança, devir-louco, devir-homossexual, devir-negro, devir-índio etc.

      O que são as cotas? Um dispositivo paliativo para uma situação crítica atual. É, e talvez os revolucionários mais radicais não apreciem isto, uma espécie de reforma. Como é sabido, a reforma nada opera de ruptura, não produz o novo, ela se faz no interior de um determinado sistema que ela não é capaz de ultrapassar. Todavia, elas garantem que uma minoria étnica não seja excluída do espaço universitário. Como paliativo, tal dispositivo é legítimo e plenamente funcional. Ele serve bem ao seu objeto que é garantir um lugar, para os negros, na universidade, mesmo com o racismo em voga tanto dentro quanto fora da academia. Mas como paliativo, é preciso também saber olhar para aquilo a que elas, as cotas, não servem: toda promessa de que as cotas irão, quase que por milagre, acabar com o racismo na universidade, é, no mínimo, ingenuidade.

      Outra grande ilusão é a de que basta uma tomada de consciência para que o racismo seja ultrapassado. Não! Todos sabem, isto é, têm plena consciência sobre o que é o racismo, inclusive os próprios racistas. Num outro contexto, Foucault dizia que o apelo à consciência era insuficiente para se resistir ao poder exercido sobre o proletariado, uma vez que a consciência já estava, desde o início, ocupada pela burguesia. Não se trata – ouso dizer que nunca tratou-se – de consciência, mas sim de desejo e de inconsciente. É o desejo que é fascista, e a consciência, como mera superfície de um lago desejante nada plácido, não dá conta do desejo. O discurso frívolo da consciência, a exegese comum de que a consciência salvar-nos-á, serve apenas para garantir o emprego de péssimos jornalistas e para dar aos politicamente corretos algo para reproduzir em nome de uma certa moralidade abstrata. Puro discurso apartado do mundo. Na verdade, a relação de um tal discurso com o mundo é (e só pode ser) a da falsificação. Conclui-se que a revolução não é a revolução da consciência, mas do desejo.

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