Tags

, , , ,

Imagem

      Não somos comentadores. O que o leitor tem diante de si é um corte, um recorte, em suma, uma perspectiva. Mas o que é um recorte? Um recorte consiste em ativar certas potencialidades de uma dada matéria. Um romance, um poema, um texto filosófico deve ser tomado como uma matéria à espera de ter suas potências ativadas. Isso justifica a deliberada preferência que demos a certos elementos do texto, em detrimento de outros: assumimos um compromisso amoroso com determinadas potências, com a ativação destas e sem a menor ambição totalizadora.  Com efeito, o critério de seleção não é outro senão o do interesse: “isto é interessante…”, “aquilo não é interessante…” etc.

      Uma possível ilusão que devemos afastar de imediato é a de que se trataria apenas de um drama infantil: a criança que, depois de adulta narra sua epopeia contra o medo do escuro. Antes, trata-se de uma pedagogia, isto é, da narrativa de um aprendizado. A referência à Proust, logo nas primeiras linhas do conto, não é acidental, mas testemunha em favor dessa pedagogia. Ora, Proust, segundo a leitura de Deleuze, teria partido da ideia de que a narrativa tem como objetivo as aventuras e desventuras de um aprendiz. No caso de Proust, trata-se do aprendizado dos signos, dos sistemas de signos. E quanto ao conto, não se trataria, em alguma medida, também de um aprendizado dos signos, de um desvendamento dos mistérios dos signos? Testemos uma hipótese: o medo que invade a solitária criança tornada refém da escuridão – “Dormir solitariamente no meio de um quarto escuro era algo terrível…” – não surgiria como o efeito de uma insensibilidade aos signos da noite, àquilo que a noite tem a oferecer a todos aqueles que a experimentam, isto é, que se deixam atravessar pelos devires que ela suscita?

      A árvore desempenha, na composição do ambiente e na evolução da personagem, uma função epicentral, ela ativa uma potência da memória (lembrança) que desloca a criança de seu lugar habitual (o quarto escuro) e a arrasta numa linha de fuga; trata-se, em outras palavras, de uma desterritoriaização, cuja reterritorialização dar-se-á na praia, lembrança transformadora da escuridão do quarto. Há, pelo menos, dois territórios – o primeiro é o quarto e o segundo é a praia que o contemplar da árvore de eucalipto evoca com força, vivacidade e faz a criança entrar num devir: uma viagem sem sair do lugar, e uma viagem sem sair do lugar é aquela de quando nos encontramos com algo que impressiona nossos corpos e nos força a “devirmos”. Mas, a lembrança não vem por si só, ela vem – e só pode vir – por meio de uma atividade capaz de trazer essa potência – a lembrança – à tona: é preciso contemplar, isto é, ver, para lembrar. Tudo é visão, tudo é devir, como se verá: “Após os meus olhos tanto fitarem o céu, via pela janela a grande árvore do vizinho que com sua grandiosa copa sempre balançava e farfalhavam suas longas folhas de eucalipto que me remetiam ao quebrar das ondas na praia.”

      Impressão dos corpos: os versos que o mar recita ao pequeno infante na intenção de seduzi-lo, a criança sente-os e percebe-os, pois contempla-os. Eis que se lê, então: “[…] via o mar recitar seus belos versos na tentativa de conquistar os meus mais profundos sentimentos para que o adorasse e não o reconhecesse tão facilmente fingindo-se ser uma árvore breu adentro.” A árvore deve ser tomada como um simulacro do mar, sua máscara, seu disfarce; Dionísio, brincalhão e astuto, se oculta por detrás de suas infinitas máscaras. Lembremos: Dionísio é o deus do devir. A árvore (enquanto simulacro) é o devir do mar e a escuridão é a própria realidade do devir. É interessante que seja a fonte da insatisfação da criança com a noite seja essa escuridão que a força a repetir para si a imagem dos objetos uma vez que eles, ausentes de luz, não podiam ser vistos por ela: “Talvez viesse disso toda a minha insatisfação com a noite: repetir a mim mesmo cada parte daquilo que queria ver e não o podia pela ausência de luz.” E ainda mais interessante o fato de que essa insatisfação relevar-se-á, no decorrer da aprendizagem, a consequência de uma incompreensão da verdadeira realidade da escuridão. Ela, a criança, aprenderá a ver, mesmo no escuro, uma vez tendo compreendido a realidade do devir, que escapa à luz.

      Mas essa luz é precisa ser entendida num sentido muito rigoroso: trata-se da luz da Razão. Apolo contra Dionísio. Atentemo-nos para o seguinte: a expressão “luz da razão” é recorrente na história da filosofia moderna, implicando uma série de desdobramentos e variações. Descartes falará numa “luz natural” (que é a da razão) e Kant num “esclarecimento” (retomada, à sua maneira, da noção de iluminação pela Razão), ambos remetendo à racionalidade. Ora, é a racionalidade que lança luz às coisas. Então, de Apolo ao Iluminismo, há toda uma história contra a qual se trava uma ferrenha batalha em nome de forças outras, visto que há pensamento para além do logos. Grande contribuição essa de Nietzsche: ao invés de, à maneira de seu mestre, ter sucumbindo ao irracionalismo, ter descoberto o pensamento para além da razão, todo um jogo de forças, inclusive de forças “inconscientes”, fundantes de um pensamento vertiginoso, selvagem. Assim, o filósofo alemão definiu os traços distintivos do pensamento contemporâneo, suas linhas de força, suas resistências, seus combates. É preciso ler não apenas este, mas todos os contos deste volume, a partir dessa abertura do pensamento operada prodigiosamente por Nietzsche.

      O cerrar os olhos – uma recusa aos caprichos da imagem iluminada – constitui um grande passo no sentido da descoberta da noite. Não mais se resiste à escuridão através dos olhos que insistem em permanecer abertos, dos olhos que buscam, nessa escuridão agitada da qual o pequeno infante pouco ou nada sabe, ainda um resquício das imagens que a luz assegurava (as figurinhas). Ora, passa-se, então, de um regime do “claro” e “distinto” (Apolo) para um regime do “obscuro” e “distinto” (Dionísio). E a música, aí, desempenhará um papel crucial. Ela, ao mesmo tempo em que prescinde de toda iluminação, assegura a distinção por meio de linhas melódicas, de séries instrumentais que compõem uma sublime e curiosa orquestra. Como na era trágica, a música é o essencial.

      Por isso lemos: “A magia dos olhos fechados é a de que toda música e todo som parece infinitamente mais alto e detalhado como se viesse repleto de mistérios e pormenores que a imagem me fizera esquecer”. Belíssima narrativa de uma singular experiência que só foi possível “no silêncio dos olhos e da luz”; quando, abrindo mão da imagem, aventuramo-nos na estonteante sinfonia da Treva, da Noite, em suma, de Dionísio. Logo após o trecho citado, a criança – que também é o próprio autor – elenca exaustivamente as diversas linhas melódicas, as séries instrumentais da qual falávamos no parágrafo anterior, que dão testemunho do distinto ao qual a música abre o pequeno infante:

“Distinguia com mais nitidez o farfalhar da árvore que tanto persistia a cantar assim como o grilo que parecia berrar intensamente, como se revogasse por direitos e dedicasse toda a sua revolta aos demais animais noturnos para que o ouvissem e tentassem através de conselhos considerarem suas pautas sindicais. O sapo, em contrapartida, coaxava como um advogado de defesa que impunha sua tese através da longa língua que devora o grilo incauto. Certos eventos tomam mais informações e minúcias longe da experiência usual, como se o gosto das frutas viesse além do cheiro e sabor pela cor e o barulho da separação das partes do fruto fragmentadas pela mordida feita pelos dentes em cunha. Da mesma maneira, o barulho do cascalho que atrita uns com os outros com o passear do cão no terreno vizinho, o gato que escorrega no telhado e o bater das asas de algum pássaro que se alojava tão proximamente se torna verossímil independente de uma imagem senão do suspiro pelo espanto gracioso de notar essas veladas informações e que de repente aparecem de maneira aterradora no silêncio dos olhos e da luz.”

      E dizer que se substitui o claro pelo obscuro, mantendo intocado o distinto é cometer um severo deslize, visto que o distinto também muda: ele é ampliado, dilatado, levado se não ao máximo, a quase isso de sua força. Assim, poder-se-á distinguir com maior nitidez os cantos, os instrumentos, em suma, a música. Distingui-se com agudeza o farfalhar da árvore com o coachar do sapo, o barulho do cascalho, o gato que escorrega no telhado e, por último, o bater de asas de um pássaro qualquer. Por fim leremos, num gesto grandioso de afirmação da vida através da música: “Agora, tão mais repletos de detalhes, cada ser constituía para mim uma música, uma longínqua composição do tempo dos deuses criadores que havia de ser recitada para que soubéssemos com deleite e alegria que eram aqueles os grandes músicos da vida”.

     Ah, a vida, nesse instante extraordinário de descoberta, de experimentação de novas forças em que os hieróglifos da noite são desvendados pelo infante, torna-se digna de afirmação, de uma alegre e ébria afirmação – aplaudamo-la! Sim! Aplaudamo-la! “O que tanto havia eu ignorado, agora que percebia e ouvia com tanto vigor e encanto, seria a grande beleza que residia na vida? Como uma obra de Debussy, toda a noite me parecia uma tagarelice suave e calma, um arabesco descrito suavemente nas doces formas dos sons que me embebedavam ao sono.” Revela-se, então, um insuspeito vitalismo cuja força nos atravessa e nos transborda. A descoberta da noite, dos seus devires, encontra seu ponto de convergência na vida como objeto de um poderoso Sim. A vida é esses devires que a noite faz emergir quando é ouvida; e ela é também “essa” música, o que nos obriga a concordar com Nietzsche, quando esse afirma que a vida, na ausência de música, seria um erro. É preciso ouvir a música da vida, e ao ouvi-la, ao tornarmo-nos sensíveis a ela, afirmamos a vida. Mas não a afirmamos somente – a afirmação qualificará também a vida -, afirmamo-la na sua beleza. A vida é música e por isso é bela.

      Os monstros que comumente incutiam medo aos pequenos transformam-se nas figuras mais belas e inofensivas, dignas, inclusive, de carinho; o negro explode em graciosas cores; o horror da noite é substituído pelo encanto de um espetáculo, de um fabuloso concerto cujo quarto (a vida) é palco. Eis que tudo é jogo de música e cores: só é preciso encontrar o tom. Aí, vimo-nos diante de um impressionismo radicalizado diante do qual “até mesmo Monet ficaria estupefato.” E tudo para prepararmo-nos para uma cintilante verdade; a saber: “belo é aquilo que tu vês, mais belo aquilo que suspeitas, e o que ignoras muito mais belo ainda.” Eis a vida!

      O que poderíamos ainda falar a respeito desse conto? Duas coisas. Seu parágrafo final não deve ser ignorado, por parecer nada dizer de interessante aos leitores. Primeiro, o lamento que o encerra precisa despir-se de sua acepção ordinária – não é um simples clichê. Sim, é verdade que muito se falou e ainda se fala das delícias da infância em oposição às amarguras da vida adulta, mas esse breve lamento é feito de um certo lugar que não se pode ignorar, isto é, ele está inserido no contexto da obra. E isso nos leva diretamente ao segundo e último ponto que gostaríamos de abordar. Vemos aqui o aparecimento de uma personagem que será, futuramente, decisiva na constituição do conjunto da obra e que não estava, a princípio, presente: a imaginação. Percebam que o infante rende-se ao sono porque a imaginação, no seu intenso transbordar-se, isto é, no seu exercício até o limite do que pode, cansou-se e precisa recarregar-se. Não é o caso do adulto, que ao deitar-se em sua cama, após um longo dia de atividade, tem sobre si o peso de suas responsabilidades, de seus problemas, de suas dores, de suas angústias, de seus fantasmas etc. Dessa maneira, adianta-se um tema que se verá frequentemente em textos futuros: o homem não é mais capaz de imaginar, um imaginar que se encontrará, posteriormente, em seu duplo: o sonhar. O adulto não sabe nem imaginar nem sonhar. Seu sono não é o da criança, que apenas cansou-se de exercer sua imaginação. Portanto, imaginação e sonho constituirão, no conjunto da obra, o palco de grandes revelações e de uma crítica virulenta ao nosso tempo.

P.S: Em tempo, segue abaixo o link com o conto “O quarto”, escrito por Tarik Alexandre e trabalhado neste texto:

http://visainertiae.wordpress.com/2013/10/26/o-quarto/

Anúncios