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Magritte - Isto não é um cachimbo

Ceci n’est pas une pipe (1929, óleo sobre tela) – René Magritte.

      O leitor se espantará se, após uma leitura apressada, dar-se conta de que diversos termos que tendo sido assumidos como metáforas nessa leitura, em realidade, dão testemunho de uma literalidade que nada concede à metáfora – pensa-se, num primeiro momento, que se trataria de um abuso, de uma inverossimilhança do autor. Olhamos para o lado, com suspeita, e nos perguntamos se isso está certo. Obviamente, trata-se de outra coisa, de um conjunto de regras especiais que permitem ao filósofo pensar o outrora impensado (um novo modo de expressão filosófica). Deleuze (1925-1995) insistirá, em momentos muito diversos, que aquilo que ele diz não é, sob circunstância alguma, uma metáfora (é preciso lê-lo ao pé da letra); Deleuze não falará através de metáforas. O que isso significa, afinal? Significa que não se deve tomar um conceito filosófico, com seu rigor, sua lógica e sua realidade próprios, por uma metáfora. É um cuidado, um modo correto de proceder no plano conceitual. Confundir o conceito – e conceito, como bem esclarecido no livro O que é a Filosofia (1991), é aquilo que a filosofia produz enquanto tal1 – com uma metáfora é destruir o próprio conceito, emperrando assim a criação filosófica que é, afinal, a criação conceitual.

      O conceito, se o tomamos como Deleuze o toma, se define por características muito próprias, ele tem, pois, uma natureza distinta, que não se confunde com a natureza da metáfora; há um conceito de conceito que de modo algum pode ser negligenciado. Poder-se-á objetar que Deleuze faz, sim, uso de metáforas, e não apenas esporadicamente, mas com certa regularidade; se isso é verdade, de modo algum se trata de uma refutação do que fora dito até aqui, uma vez que a recusa de Deleuze pela metáfora se dá de um lugar particular; a saber: do plano de imanência sob o qual acontece, ou, antes, em relação ao qual acontece criação conceitual. Não é que Deleuze queira nos dizer “abandonem as metáforas”, como um negador qualquer e irresponsável. Ele sabe que abandonar a metáfora como recurso linguístico é abandonar a própria linguagem. Com efeito, compreende-se muito mal o filósofo se se procede assim. Acontece de pensarmos em termos de metáforas, quando, na verdade, deveríamos pensar em termos de conceitos; confundimos o conceito com a metáfora, e assim o perdemos para sempre…

      Recusar as metáforas é, sucintamente, um meio de empreender um verdadeiro exercício filosófico de produção conceitual.

      Tomemos como exemplo um conceito caro à filosofia deleuzeana, o de máquinas desejantes (substituído, posteriormente, pelo de agenciamento). Esse conceito estranho, curioso, que nos desperta, é verdade, uma certa suspeita – cremos que o filósofo está a falar de algo absolutamente abstrato, isto é, que não encontra sustentáculo algum no plano concreto – encontra-se no livro O Anti-Édipo (1972), e constitui uma peça chave na crítica deleuzeana à psicanálise tradicional. Deleuze escreverá logo no primeiro capítulo do livro: “Isto funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. Isto respira, isto aquece, isto come. Isto caga, isto fode. Mas que asneira ter dito o isto. O que há por toda a parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com as suas ligações e conexões.” (DELUZE & GUATTARI, 2004, p. 7). Ele já anuncia o que para nós é de suma importância: “(…) e sem qualquer metáfora (…)”. A um ouvido não-filosófico, isto poderia passar despercebido, todavia, se não se compreende o que Deleuze quer dizer quando apresenta-nos termos pouco ou nada usuais, caímos nos perigos que toda má leitura implica. Não que queiramos aqui definir uma certa verdade do texto deleuzeano, como se isso fosse, de fato, possível – e desejável! -, pensamos apenas em alertar para o que é fundamental a uma leitura minimamente precisa do filósofo: apresentar certos aspectos parciais de sua estratégia, de seu pensamento, em sua, de seu estilo. Deleuze não cessará de dizer, a cada vez que introduz um novo conceito, que não se trata de uma metáfora. Tentemos compreender o que isso quer dizer a partir do conceito de máquinas desejantes.

      Para Deleuze, tudo é máquina, há máquinas por todos os lados, em todos os lugares, “máquinas de máquinas, com suas ligações e conexões” (DELEUZE & GUATTARI, 2004, p. 7), e isso de modo algum constata um uso metafórico da linguagem, ou seja, quando Deleuze diz que tudo é máquina, ele está dizendo que devemos pensar em termos de máquinas; isso vale para o homem, para as pedras, para as flores e para os animais; é, pois, uma nova “imagem do pensamento”, uma nova forma de relação entre as multiplicidades que constituem o mundo. Deleuze dará o exemplo nada polido do presidente Schreber: há em seu cu raios de sol. Dito com mais clareza: há um processo de conexão, de ligação, entre uma máquina-orgão (o anus) e uma máquina-energia (o sol), de maneira tal que alguma coisa muito diferente acontece, “o presidente Schreber sente qualquer coisa, produz alguma coisa, e ê capaz de o teorizar. Algo se produz: efeitos de máquinas e não metáforas” (DELEUZE & GUATTARI, 2004, p. 7).

      Com efeito, o filósofo dará exemplos deveras variados e muito ricos, como por exemplo, a relação entre o seio materno e a boca do bebê: o seio é uma máquina de produzir leite conectada a uma outra máquina, a máquina de sugar/comer do bebê. Desse modo, a relação o seio/a boca é a relação entre máquinas heterogêneas que se ligam num processo de produção incessante (produção esta que é a própria produção desejante). Para Deleuze, não se tratará, como em Freud, de pensar a relação entre o bebê e o seio materno como uma perversão tipicamente infantil (a fase oral, como dirá Freud), uma vez que nada há para ser interpretado (significante); as máquinas desejantes nada dizem, elas funcionam, operam conexões, cortes e fluxos, conforme essas mesmas conexões. Poderíamos também pensar que o sexo oral nada mais é do que um efeito de máquinas: uma máquina-sexual (um pênis ou uma vagina) que se liga a uma máquina de comer (a boca). É uma conexão entre máquinas feita a partir de uma organização do CsO. Mas eis também que isso produz algo de novo: a máquina de comer torna-se então máquina-sexual ao ligar-se com aquela outra máquina (já se trata de outra coisa, de uma nova máquina nascida de uma conexão contingente, a ligação entre duas máquinas que forma uma terceira, disjunção inclusive ou síntese maquínica). Isso opera fluxos e cortes que são próprios do desejo, o que permitirá à Deleuze elaborar uma crítica pesada à concepção freudiana de desejo, uma vez que “acredita-se muitas vezes que o Édipo é algo de fácil, de dado. Mas não é assim: O Édipo supõe uma fantástica repressão das máquinas desejantes” (DELEUZE & GUATTARI, 2004, p. 8).

      Pensamos ter encontrado o coração da filosofia deleuzeana num uso despreocupado de metáforas, metáforas que serviriam como referência a algo que não poderia ser dito de outro modo, mas, ao contrário, encontramos nessa perspectiva a perdição de sua filosofia, o perigo que a mina. Como dirá Deleuze, as metáforas são palavras sujas, ou as criam, na medida em que ela nos faz perder o conceito. Máquinas desejantes, então, será um conceito que designa uma forma distinta de experimentação; eu experimento o mundo e a mim mesmo de outra forma, experimento-me e experimento o mundo como máquina, onde só há máquinas e conexões de umas com as outras (mecanosfera). François Zourabichvili percebeu isso muito bem, quando foi explicar o conceito deleuzeano de rizoma:

Já Deleuze daria uma explicação diferente: “o cérebro é uma erva” não deve, certamente, ser tomado no sentido próprio, pois está claro, para todos, que o cérebro não é um vegetal. Mas é duvidoso que eu tenha uma idéia do cérebro antes desse tipo de encontro estranho. Ou, então, essa idéia é do tipo: “o cérebro é uma árvore”. Deleuze quer dizer que, nos dois casos, não se trata da mesma experiência do cérebro: nem da mesma concepção neurológica, nem da mesma relação vivida com o cérebro. Por muito tempo, acreditou-se que, uma vez que o cérebro era o órgão central, ele próprio deveria ser centralizado, como uma árvore. Os dados da neurologia dos últimos trinta ou quarenta anos nos fazem crer, ao contrário, que o cérebro é um sistema a-centrado, uma multiplicidade, cujas conexões são probabilísticas e não-predeterminadas. (Educ. Soc., Campinas, vol. 26, n. 93, p. 1309-1321, Set./Dez. 2005. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br&gt😉

      É deveras estranho pensarmos assim, hesitamos – e não sem razão, já que estamos habituados a uma leitura tradicional dos textos filosóficos; obviamente que tudo muda quando, por exemplo, nos deparamos com Nietzsche que escreverá em aforismos e dará um novo tom à escrita em filosofia -, e preferimos muitas vezes não nos aventurarmos nesse universo exótico de uma produção conceitual que vai de um lado a outro, explodindo as metáforas e instaurando novos modos de pensar. É verdade que há ainda mais para dizer, Deleuze desenvolverá – embora ele não se dedique diretamente à questão – ainda mais a questão concernente à recusa da metáfora e o uso de uma linguagem literal. Existem ainda outras regras especiais que nos permitem pensar o que é a linguagem literal em Deleuze. Aqui visei tratar apenas de um aspecto muito caricaturesco dessa problemática. Não é apenas com o conceito de máquinas desejantes ou com o conceito de rizoma que encontramos esse problema, há também outros: “linhas de fuga”, “máquina de guerra”, “desterritorialização”, “distribuição nômade”, “cristal de tempo”, “ritornelo”, “acontecimento” etc. Vê-se que a lista é grande e que as perdas, neste caso, seriam altíssimas (é a própria filosofia deleuzeana que se perde). Que se possa ler com mais “precisão” o texto deleuzeano é, então, o objetivo deste breve texto. Espero, realmente, ter auxiliado em algo os meus leitores e que possam ler Deleuze com outros olhos – menos viciados por um modo ortodoxo de leitura filosófica.

       

Referências Bibliográficas: 

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia?. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia. Lisboa: Ed. Assírio & Alvin. 2004

Notas:  

1 – DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix in “O Que é a Filosofia?”, p. 13. “(…) a filosofia não é uma simples arte de formar, de produzir ou de fabricar conceitos, pois os conceitos não são necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos.”

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