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Resumo: A filosofia de Nietzsche revelaria, sob um certo aspecto (o da autogenealogia), a marca indelével do individualismo, tomado como uma certa afirmação egoística de si. Mas, assumindo que isso seja verdade, em que consiste esse egoísmo? Qual o lugar dessa afirmação na filosofia de Nietzsche? A pretensão deste texto é bastante local, e tratará apenas de certos vestígios dessa questão, tendo em vista o procedimento autogenealógico que dá sentido à Ecce Homo.

Palavras-chave: Nietzsche; Egoísmo; Ecce Homo; Autopreservação. 

      Em Nietzsche (1844-1900) o leitor encontrará uma curiosa afirmação do egoísmo, ou da “autopreservação”, como elemento regulador da instituição de si. A filosofia de Nietzsche revelaria, sob um certo aspecto (o da autogenealogia), a marca indelével do individualismo, tomado como uma certa afirmação egoística de si. Mas, assumindo que isso seja verdade, em que consiste esse egoísmo? Qual o lugar – deve-se perguntar – dessa afirmação na filosofia de Nietzsche? Esboçar-se-á uma resposta a partir da análise de aforismos presentes em Ecce Homo, aforismos esses que se articularão com aforismos de outras obras, como Crepúsculo dos Ídolos e A genealogia da moral, por exemplo. Em verdade, a pretensão deste texto é bastante local, e tratará apenas de certos vestígios dessa questão, tendo em vista o procedimento autogenealógico que dá sentido à Ecce Homo.

      Sobre o sacerdote ascético, representante da moralidade cristã, e os meios que esse tipo desenvolve para separar o homem de si mesmo, escreve Nietzsche (2009, p. 128): “A atividade maquinal, e tudo quanto ela a ela se refere, a regularidade absoluta, a obediência pontual e inconsciente, o costume adquirido, o emprego completo do tempo, certa disciplina da impessoalidade, do esquecimento de si mesmo, de incuria sui: quão radicalmente e com tanta delicadeza, soube o sacerdote ascético empregar tudo isto na luta contra a dor.” Muito embora o trecho citado remeta à linha argumentativa de Nietzsche contra o ideal ascético e o sacerdote ascético, não é ignorável que na base da vida ascética está a negação de si a partir da fuga da dor. Como elemento dessa fuga, tem-se uma fuga de si mesmo: a impessoalidade, o esquecimento de si, o agir mecânico e regular do hábito etc. Poder-se-á dizer que fugir da minha dor implica fugir de mim mesmo. Ora, se do ponto de vista dos ideais ascéticos, nega-se a si mesmo, como seria possível haver espaço para o egoísmo, para o amor-próprio e, portanto, para o “tornar-se o que se é” que nada mais é do que a observância às técnicas, singulares, de produção de um “si”? O tema do egoísmo, como se vê, perpassa os subterrâneos do tema principal, que é os ideais ascéticos. Ao criticar a moral cristã da compaixão (idem, ibidem, p. 129), Nietzsche critica, tacitamente, a ideia de um desinteresse implicada na ideia de amor ao próximo. Recusa-se a ideia de uma ação que não diz respeito àquele que age, senão na medida em que nessa ação aquele que age se nega, nega seus instintos, endossa sua impessoalidade, seu desinteresse.

      O que o egoísmo tem de especial no que tange a produção de si, de que modo pode ele desempenhar um papel realmente positivo e produtivo num processo de subjetivação? Ora, mas é o cristianismo que negativiza o egoísmo, faz dele um vício, um pecado, um afeto que deve ser extirpado do homem. É o cristianismo – principalmente a partir do imperativo moral da compaixão – que moraliza o egoísmo, converte-o em negação do outro em proveito de si: “O Tu é mais antigo que o Eu. O Tu foi santificado, mas o Eu ainda não. Por isso o homem anda diligente atrás do próximo.” (idem, p. 60) Segundo Jason de Lima e Silva, em sua tese, “toda atividade voltada para o fazer e o criar pressupõe, no pensamento de Nietzsche, um egoísmo ou amor de si.” (SILVA, 2007, p. 69) A criação, e portanto a estética – é preciso situar a problemática do egoísmo no interior da perspectiva nietzschiana da vida como obra de arte -, pressupõe um certo egoísmo como condição de sua realização:

“O egoísmo cria, por um lado, as condições para a arte do artista, no seu trabalho cotidiano sobre a obra, e, por outro lado, para além da arte propriamente dita, o egoísmo permite à vida, e exige da vida, um sentido ao seu fazer, das pequenas às grandes tarefas com as quais alguém se compromete, e em relação as quais a obra do artista é apenas um modelo, um exemplo do fazer que a vida necessariamente reclama.” (SILVA, 2007, p. 70)

      A partir desse trecho, é impossível não lembrar-se dos processos expostos por Nietzsche em Ecce Homo sobre a criação de si. Lá, Nietzsche desenvolve seus próprios métodos, encontra seus próprios meios, com o objetivo de tornar-se o que se é. E os apresenta – como é o caso de seus regimes alimentares, mas também da busca de um clima propício para a atividade do seu pensar.  Para além de sua obra propriamente dita, Nietzsche dedica-se às “pequenas e às grandes tarefas”, não é à toa que o filósofo preconiza elementos da vida comum, tarefas cotidianas, pois “a arte da vida só se realiza quando dirigida às coisas mínimas e cotidianas.” (idem, ibidem, p. 71) Há um comprometimento de sua parte na busca de um sentido, mesmo que múltiplo, de seu fazer:

“[…] a casuística do egoísmo (Kasuistik der Selbstsucht), tal como aparece em Ecce Homo, cria o eu por um efeito de hábitos diários e cuidados cotidianos, […]. Trata-se de levar a sério os problemas mais concretos da vida: o cuidado com a alimentação, o lugar onde se vive, o clima, todas essas ‘pequenas coisas’ (kleinen Ding), cuja ordem, e na escolha das quais, tornam-se ou não possíveis as grandes tarefas (große Aufgaben).” (idem, ibidem, p. 73)

      A propósito de Ecce Homo. Nietzsche explica-nos que na base da seleção alimentar, bem como na climática, na espacial e na recreativa, isto é, na busca por condições de desenvolvimento sadio de si, tema epicentral dos aforismos anteriores, está o “instinto de autopreservação” (NIETZSCHE, 2010, p. 61). Tal instinto manifestar-se-ia ambiguamente no “instinto de autodefesa” (ou gosto), que se apresenta como uma regra do pathos da distância contra as forças de negação: “Seu imperativo não apenas ordena a dizer não, onde o sim seria uma ‘atitude desinteressada’, mas também a dizer não o menos possível… Separar-se, amputar-se daquilo em que o não sempre voltaria a ser necessário” (idem, ibidem, p. 61). Evitar ao máximo dizer não, possuir a inteligência do distanciar-se, do desprender-se daquilo que obriga o sujeito a empreender a negação do que o agride – já que se trata de autodefesa. Mas por que a negação deve ser evitada nesse contexto? Acontece que para Nietzsche o empobrecimento e o esgotamento carcomem a força dos que negam em excesso. O instinto de autodefesa, quando elevado à categoria de regra, de hábito – repetição assídua – tem como consequência um dispêndio de força, e um dispêndio de força tão grande que retira do sujeito até mesmo sua capacidade de defender-se, tornando-o, então, totalmente exposto, fragilizado diante daquilo que o impele à negação, como o próprio Nietzsche bem exemplifica no seguinte trecho:

“Supondo que, pondo meus pés fora de casa, eu encontrasse, em vez da calma e aristocrática Turim, uma cidadezinha provinciana alemão: meu instinto teria de se trancar, para evitar a entrada de tudo aquilo que costuma vir desse mundinho chão e covarde e nos perseguir. Ou supondo que eu encontrasse a metrópole alemã, esse vício construído, onde nada cresce, onde qualquer coisa que seja, boa ou má, se acoitou. Não teria eu de me transformar em um ouriço por causa dela?… Porém espinhos é um desperdício, um luxo duplo, inclusive, quando se é livre para não ter espinhos, mas sim as mãos abertas… (idem, ibidem, pp. 61-62)

      A imagem do ouriço e a imagem das mãos abertas (que lhe faz contraponto), tal como utilizadas por Nietzsche, não devem ser ignoradas. O que é um ouriço? É um animal que, devido ao seu corpo coberto por espinhos, está a todo o momento repelindo tudo aquilo que se aproxima de si. Portanto, ele é a imagem daquele que nega excessivamente, impelido pela necessidade inescapável de dizer não. Opondo-se à imagem do ouriço, temos a imagem da mão aberta que indica uma certa “receptividade”; dito de outro modo, trata-se de alguém que diz sim, que não esgota-se na negação e que prefere mesmo negar o menos possível, como se o pathos da distância, esse conceito cuja função prática é a de nos distanciar do que nos obriga a negar, emergisse aí como condição do sim.

      Até aqui viu-se a primeira “mostra” de inteligência e autodefesa – saber distanciar-se do que provoca negações, que em excesso empobrecem, enfraquecem, o sujeito -, mas há ainda uma segunda “mostra”, que “consiste em reagir tão raramente quanto possível e em evitar lugares em condições nas quais se estaria condenado a suspender de imediato sua ‘liberdade’, sua iniciativa, para se tornar um simples reagente” (NIETZSCHE, 2010, p. 62). Se antes tratou-se de contrapor afirmação e negação, agora trata-se de contrapor atividade e reatividade. O sujeito reagente suspende sua “liberdade” (liberdade que deve ser entendida no sentido de que não é dada ao sujeito a possibilidade de não reagir aos estímulos), ele reage necessariamente e apenas reage – sua ação, toda a sua ação, converte-se em reação, isto é, em resposta. Mas ao mesmo tempo em que o sujeito perde a sua “liberdade” no agir, lhe é vetada também toda iniciativa, sua ação vem depois, depende do estímulo, dado o seu caráter de reação. O sujeito nada começa por si, nada pensa por si, ele “espera” que algo lhe aconteça e aí ele se põe a pensar. Essa é a crítica que Nietzsche lança contra os eruditos. O erudito, ao passo que, nas palavras de Nietzsche, “mói” seus livros, é um sujeito de pura reatividade. Seus pensamentos são na verdade respostas aos pensamentos dos livros que lhe aparecem como estímulos – na verdade, não são pensamentos, adverte Nietzsche. Com isso abole-se o pensamento que é atividade. “O erudito”, conclui Nietzsche, “gasta toda sua força em dizer sim e não, na crítica do já pensado – ele mesmo não pensa mais… O instinto de autodefesa tornou-se frouxo nele; pois se assim não fosse ele iria se precaver com os livros” (idem, ibidem, p. 62).

      Buscou-se apresentar, a partir dos trechos de Ecce Homo, o que Nietzsche compreende por instinto de autopreservação ou instinto de autodefesa – que nada mais é do que a manifestação ambígua daquele primeiro. Ora, evitar as situações de negação e de reação, pelo instinto de autodefesa, é a forma de autopreservação, haja vista que com isso previne-se o indivíduo do empobrecimento e do enfraquecimento aos quais ele estaria sujeito uma vez que tal instinto fosse fraco em si. Contudo, se é verdade que podemos, a partir desse material, ter uma vaga intuição do que seria o egoísmo do ponto de vista da autogenealogia, é preciso ainda clarificar essa identificação entre egoísmo e autopreservação, pressuposta no início do trabalho aqui exposto. E é Nietzsche, ainda em Ecce Homo, quem nos revela essa identificação: “Nesse ponto já não é mais possível se desviar da verdadeira resposta para a pergunta como a gente se torna o que a gente é… E como isso eu toco a obra-prima na arte da autopreservação – do egocentrismo…” (idem, ibidem, p. 62). Fica claro, nesse trecho, que Nietzsche identifica a arte da autopreservação com o egocentrismo – que está, inclusive, enfatizado pelo negrito -, e não parece haver nenhum obstáculo semântico para que não enxerguemos aqui o sentido do egoísmo, isto é, de uma volta para si mesmo. Perscrutar a si mesmo, responder a essa pergunta fundamental, que é a de saber como se torna o que se é, é tomar uma atitude egoística: não o mais distante de nós, mas o mais próximo de nós; em suma: nós mesmos.

      E Ecce Homo não é o único livro no qual Nietzsche canta um elogio ao egoísmo enquanto função de autopreservação. Em Crepúsculo dos Ídolos, num contexto muito análogo, lê-se o seguinte:

“Valor natural do egoísmo – O amor de si só vale em relação ao valor fisiológico daquele que o pratica: pode valer muito, pode ser indigno e desprezível. Cada indivíduo deve ser apreciado segundo represente a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Julgando o homem dessa maneira se obtém também a regra que determina o valor de seu egoísmo. Se representar a linha ascendente, seu valor é efetivamente extraordinário – no interesse da vida total que com ele dá um passo a frente, o cuidado de conservação, de criar seu optimum de condições vitais deve ser realmente extremo” (NIETZSCHE, p. 82).

      A criação de um optimum de condições vitais não vai ao encontro de tudo o que Nietzsche falara acerca do instinto de autopreservação em Ecce Homo? Egoísmo e autopreservação correspondem à mesma coisa. A escolha dos alimentos, do clima, do lugar, da recreação não são elementos desse optimum? Não cabe discutir o estatuto de natureza que Nietzsche parece atribuir ao egoísmo pura e simplesmente, afinal, seria preciso responder às questões relativas ao conceito de natureza para Nietzsche, caso de um trabalho específico. Mas é evidente, a partir desse aforismo, a importância inquestionável do egoísmo no processo de cultivo de si e, portanto, no que se refere à máxima nietzschiana de tornar-se o que se é: “egoísmo, portanto, que não pretende conhecer o ego, mas prepara-lo e produzi-lo para aquilo que deseja ser e fazer de si mesmo.” (SILVA, 2007, p. 71) Ora, Nietzsche elabora uma reinterpretação moral do egoísmo, retirando dele o apanágio negativo oriundo da moralidade cristã, que a ele opõe o altruísmo. Embora Nietzsche não discuta, a essa altura, a questão egoísmo/altruísmo, é possível entrever esse deslocamento. O egoísmo é despido de seu invólucro moral. Não parece tratar-se do mesmo egoísmo o qual se está habituado a atacar nas vociferações morais contra o homem e sua mesquinhez, pois aqui o egoísmo, antes um vício, converte-se em virtude, e responde ao chamado da transvaloração dos valores (idem, 2010, p. 64). Se nos atemos ao detalhe, à sutileza do conceito, ao seu deslocamento subterrâneo, percebemos que cultivar o egoísmo, para Nietzsche, consiste em voltar-se para si, preencher-se de si, satisfação de si para si sem mediação, um empreendimento de produção de um si singular. Dessa maneira, a função egoística parece, de fato, ocupar um lugar fundamental no processo de tornar-se o que se é, pois é a partir dele que se escolhem os meios, os ambientes em que a produção de si é possível.

Referência bibliográfica:

NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Escala.

___________,_. Ecce homo, como a gente se torna o que a gente é. Porto Alegre: L&PM, 2010.

___________,_. A genealogia da moral. Petrópolis: Vozes, 2009.

___________,_. Assim falava Zaratustra. São Paulo: Escala.

SILVA, José de Lima. Foucault além de Nietzsche: da moral como lei e norma à avaliação moral como ética e estética da existência. Porto Alegre: PUCRS, 2007, 209 f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Programa de Pós-graduação em Filosofia, Faculdade de Filosofia, Pontífice Universidade Católica do Rio Grande o Sul, Porto Alegre, 2009.

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